Nos últimos anos, o gênero GL tem expandido suas fronteiras ao apostar em histórias que vão além do romance escolar. The Air surge justamente com essa proposta. A série combina ação, conspirações políticas, uma princesa obrigada a fugir de seu destino e uma policial encarregada de protegê-la. É uma premissa que reúne ingredientes suficientes para construir um thriller romântico envolvente.
Nos primeiros episódios, essa promessa realmente existe. A produção apresenta boa qualidade técnica, um elenco carismático e protagonistas com química suficiente para conquistar o público. No entanto, conforme a narrativa avança, fica evidente que o roteiro não consegue transformar esse potencial em uma história consistente.
O romance entre Lom e Blew nunca encontra profundidade
O grande pilar emocional de The Air deveria ser o relacionamento entre Lom e Blew. As atrizes demonstram sintonia em cena e conseguem transmitir leveza nos momentos mais íntimos. O problema não está nas interpretações, mas na construção do romance.
Desde os primeiros episódios, a série praticamente informa ao espectador que as protagonistas estão apaixonadas. Familiares, amigos e personagens secundários repetem constantemente que ambas possuem sentimentos uma pela outra, antes mesmo de o roteiro construir essa conexão de forma convincente.
Em vez de permitir que a relação evolua através de conversas, conflitos internos, vulnerabilidades e convivência, a narrativa recorre constantemente a situações convenientes, ciúmes, encontros casuais e mal-entendidos para acelerar o relacionamento.
Essa falta de desenvolvimento compromete diretamente o impacto emocional da história. Quando Blew decide abrir mão do próprio trono por Lom, a decisão deveria representar o ápice de um romance intenso e cuidadosamente desenvolvido. Porém, como a relação ainda parece estar em seus primeiros passos, o sacrifício acaba soando precipitado e pouco convincente.
O roteiro prefere atalhos em vez de desenvolvimento
Grande parte dos problemas de The Air nasce de um roteiro que frequentemente escolhe a solução mais fácil.
A trama entra rapidamente em um ciclo repetitivo. As protagonistas fogem dos inimigos, são encontradas quase imediatamente e precisam fugir novamente. Esse padrão se repete diversas vezes, reduzindo a sensação de perigo e tornando os conflitos previsíveis.
Até mesmo os elementos políticos, que poderiam enriquecer bastante a narrativa, recebem tratamento superficial. A troca de identidade envolvendo a falsa princesa nunca convence completamente, já que a série oferece poucas explicações plausíveis para justificar por que a fraude seria tão difícil de descobrir.
As próprias protagonistas também sofrem com certa inconsistência. Lom é apresentada como uma policial experiente, confiante e acostumada a operações perigosas, além de possuir um histórico amoroso relativamente extenso. Entretanto, sempre que a história exige momentos românticos, ela passa a agir como alguém completamente inexperiente emocionalmente. Essa mudança brusca de personalidade dificulta a construção de uma personagem sólida.
Vilões pouco desenvolvidos enfraquecem a narrativa
Outro problema importante está na construção dos antagonistas.
Grace possui uma história de fundo que poderia transformá-la em uma personagem moralmente complexa, mas o roteiro reduz suas motivações a um desejo genérico de vingança. Em diversos momentos, ela se aproxima mais de uma caricatura do que de uma ameaça verdadeiramente interessante.
Henry sofre do mesmo problema. Suas decisões frequentemente parecem existir apenas para manter a história em movimento. Quando sequestra Blew, por exemplo, a lógica construída anteriormente é completamente abandonada apenas para permitir que o roteiro alcance o desfecho desejado.
Helena talvez represente o maior exemplo de oportunidade desperdiçada. Sua posição entre os dois lados do conflito poderia explorar culpa, lealdade e sobrevivência. Porém, a personagem acaba sendo utilizada apenas como instrumento para uma reviravolta previsível envolvendo a troca de identidades. Sua morte recebe pouca repercussão emocional e rapidamente é esquecida pela narrativa.
A produção impressiona mais do que a escrita
Apesar dos problemas do roteiro, The Air possui qualidades técnicas inegáveis.
A direção mantém um bom ritmo visual, as cenas de ação são bem produzidas na maior parte do tempo e a fotografia ajuda a valorizar os cenários. Embora alguns confrontos sejam claramente coreografados e pouco realistas, existe um cuidado perceptível com a produção.
Outro destaque é a química entre as protagonistas. Sempre que a série desacelera e permite momentos mais tranquilos entre Lom e Blew, fica evidente que havia potencial para um romance muito mais marcante.
A trilha sonora e a abertura também contribuem para criar identidade própria, reforçando a sensação de que havia uma base sólida para algo maior.
O excesso de clichês impede que The Air alcance seu potencial
O sentimento predominante ao final da série é de frustração.
The Air nunca chega a ser uma produção ruim. Pelo contrário, possui uma proposta interessante, boa produção, elenco competente e protagonistas carismáticas. Porém, todos esses elementos acabam limitados por um roteiro que evita aprofundar seus personagens e prefere recorrer constantemente a soluções fáceis.
O romance acontece rápido demais. Os conflitos políticos permanecem superficiais. Os vilões nunca se tornam realmente memoráveis. As consequências das decisões importantes quase sempre são ignoradas. Até mesmo o encerramento abandona os conflitos centrais para investir em cenas excessivamente açucaradas e preparar futuras histórias do universo compartilhado.
Vale a pena assistir The Air?
Para quem procura um GL com boa produção, belas protagonistas e momentos românticos delicados, The Air ainda oferece uma experiência agradável.
Entretanto, quem espera um romance construído com calma, conflitos políticos bem explorados e personagens emocionalmente complexos provavelmente encontrará uma série que promete muito mais do que entrega.
No fim, The Air se torna um exemplo clássico de potencial desperdiçado. A combinação entre princesa, guarda-costas, conspirações e amor proibido tinha todos os ingredientes para se tornar um dos GLs mais marcantes dos últimos anos. Em vez disso, entrega uma narrativa que depende excessivamente de conveniências, clichês e desenvolvimento superficial, deixando a sensação de que Lom e Blew mereciam uma história muito mais forte.
