I Wanna Be Sup’tar chega como uma produção tailandesa GL que aposta em uma combinação bastante conhecida pelo público: romance, comédia e o universo dos bastidores do entretenimento. Diferente de muitas histórias do gênero que se concentram apenas no desenvolvimento amoroso dos protagonistas, a série tenta explorar também as dificuldades de construir uma carreira artística, a pressão pela perfeição e o impacto emocional que a busca pela fama pode causar.
Com uma atmosfera leve e colorida, a produção encontra seu maior trunfo na relação entre Wanneung e Win, duas personagens construídas a partir de contrastes. Enquanto uma representa a energia dos sonhos de juventude e a vontade de conquistar seu espaço, a outra carrega as marcas de uma indústria que já lhe mostrou o lado mais difícil da fama. Essa diferença cria uma dinâmica interessante, capaz de equilibrar romance, humor e momentos de vulnerabilidade.
Apesar disso, I Wanna Be Sup’tar também apresenta limitações narrativas. A série possui boas ideias, mas nem sempre consegue desenvolver completamente seus conflitos, deixando algumas histórias pelo caminho e entregando uma experiência mais agradável pelo carisma das protagonistas do que pela força de seu roteiro.
Uma história sobre sonhos e o preço da fama
O grande diferencial de I Wanna Be Sup’tar está justamente no cenário escolhido. Ao colocar suas personagens dentro da indústria do entretenimento, a série consegue abordar questões que vão além do romance. Os testes, as rejeições, a necessidade constante de provar valor e a pressão para manter uma imagem perfeita fazem parte da trajetória das protagonistas.
Wanneung representa a figura da jovem sonhadora que deseja se tornar atriz, mas precisa lidar com inseguranças e com a falta de reconhecimento. No início, sua personalidade pode parecer inspirada em certos estereótipos das comédias românticas dos anos 2000: a garota desajeitada, extremamente falante e que frequentemente se coloca em situações constrangedoras. Essa construção pode dividir opiniões, principalmente por resgatar características que durante muito tempo foram associadas à protagonista “fofa e atrapalhada”.
No entanto, conforme a narrativa avança, a personagem ganha camadas mais interessantes. Sua jornada não é apenas sobre conquistar um papel ou alcançar a fama, mas sobre aprender a confiar em si mesma. O desenvolvimento de Wanneung funciona melhor quando a série abandona o humor exagerado e mostra sua persistência diante das dificuldades.
Do outro lado está Win, uma personagem mais experiente e emocionalmente fechada. Ela representa alguém que já conheceu as frustrações do mundo artístico e criou uma barreira para se proteger. A relação com Wanneung funciona justamente porque as duas acabam transformando uma à outra: enquanto Wanneung aprende a enfrentar seus medos, Win recupera gradualmente sua capacidade de acreditar novamente nas pessoas e nos próprios sonhos.
A química entre Wanneung e Win é o coração da série
Sem dúvida, o maior destaque de I Wanna Be Sup’tar está na conexão entre suas protagonistas. A química entre Wanneung e Win sustenta grande parte da narrativa e faz com que os momentos mais simples tenham impacto emocional.
A construção do romance acontece de maneira gradual, principalmente através das diferenças entre elas. A energia espontânea de Wanneung contrasta com a personalidade mais reservada de Win, criando uma relação baseada em provocações, conflitos e descobertas.
A série acerta ao mostrar que o romance não nasce apenas da atração, mas também da influência que uma pessoa exerce sobre a outra. Win não muda repentinamente por causa de Wanneung, e essa transformação lenta torna seu arco mais convincente. Aos poucos, ela começa a abandonar a distância emocional que criou e permite que novas experiências façam parte de sua vida.
Para quem acompanha a parceria entre LillyBelle, a expectativa em torno da dupla era alta, e a produção consegue entregar uma dinâmica bastante natural. A comédia romântica combina com a personalidade das protagonistas, mesmo quando algumas situações parecem exageradamente previsíveis.
Personagens secundários: potencial desperdiçado
Enquanto o casal principal funciona bem, os personagens secundários apresentam uma execução mais irregular.
A série tenta construir um universo maior ao redor das protagonistas, incluindo amizades, rivalidades e outros relacionamentos dentro da indústria. Porém, muitas dessas histórias acabam recebendo pouco desenvolvimento.
Meedee é um exemplo disso. Sua ligação com Wanneung desperta curiosidade, mas a falta de informações sobre seu passado faz com que algumas de suas atitudes pareçam confusas. A personagem possui potencial dramático, mas a narrativa não aproveita totalmente essa oportunidade.
May também acaba sendo uma figura problemática dentro da história. Suas atitudes para conquistar Win ultrapassam limites e, em determinados momentos, o roteiro exagera na construção do conflito, tornando suas ações menos complexas e mais próximas de uma antagonista tradicional.
O casal secundário FayGene apresenta uma dinâmica interessante, mas seu desenvolvimento parece acelerado. A transição entre personagens machucados emocionalmente e um novo relacionamento acontece de maneira rápida demais, reduzindo o impacto de uma história que poderia ter sido mais explorada.
Humor, roteiro e problemas de construção narrativa
Como comédia romântica GL, I Wanna Be Sup’tar consegue entregar momentos divertidos e leves. Os diálogos são um dos pontos positivos da produção, principalmente quando trabalham com ironia, provocações e a diferença de personalidade entre as protagonistas.
A trilha sonora também contribui para a identidade da série, ajudando a criar uma atmosfera mais acolhedora e reforçando o clima romântico.
Por outro lado, o equilíbrio entre humor e drama nem sempre funciona. Algumas situações cômicas parecem deslocadas quando colocadas próximas de momentos mais emocionais, diminuindo o impacto de determinadas cenas.
Outro problema está nos conflitos apresentados pela trama. Muitos deles poderiam ser resolvidos com conversas simples, fazendo com que alguns dramas pareçam artificiais. Além disso, determinadas cenas controversas envolvendo falta de consentimento geraram desconforto por retratarem situações que não deveriam ser tratadas como algo engraçado ou romântico.
A narrativa também sofre com problemas de ritmo. Algumas cenas parecem ser aceleradas ou simplesmente ignoradas, criando uma sensação de falta de continuidade. O interesse pelo desenvolvimento profissional de Wanneung, por exemplo, cresce principalmente nos momentos finais, quando a série já começa a correr para concluir sua história.
Um final que deixa mais perguntas do que respostas
O encerramento de I Wanna Be Sup’tar é um dos pontos mais divisivos da produção. Embora um final aberto possa funcionar em algumas histórias, aqui ele acaba deixando a sensação de que alguns elementos importantes não receberam a conclusão necessária.
O sonho profissional das protagonistas, especialmente a trajetória de Wanneung como atriz, poderia ter sido explorado com mais profundidade. A série apresenta um caminho interessante, mas acelera justamente quando começa a mostrar o crescimento das personagens dentro do ambiente de trabalho.
Essa escolha faz com que parte da jornada pareça incompleta, deixando o público com a sensação de que havia mais história para contar.
Conclusão: vale a pena assistir I Wanna Be Sup’tar?
I Wanna Be Sup’tar não é uma série perfeita, mas possui características que a tornam uma experiência agradável para fãs de GL e comédias românticas. Seu maior mérito está na química entre Wanneung e Win, personagens que conseguem transmitir carinho, conflito e crescimento emocional de forma natural.
A produção acerta ao explorar o universo do entretenimento e mostrar que o caminho para o sucesso envolve insegurança, rejeição e sacrifícios. Entretanto, falha ao desenvolver completamente seus personagens secundários, resolver alguns conflitos e entregar um encerramento mais satisfatório.
No fim, I Wanna Be Sup’tar funciona melhor como uma história leve sobre duas pessoas que encontram apoio uma na outra enquanto enfrentam seus próprios desafios. É uma série divertida, charmosa e com uma boa dose de romance, mesmo que deixe evidente o potencial de uma narrativa que poderia ter sido ainda mais profunda.