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Poisonous Love: Um GL Que encanta à primeira vista mas incomoda ao olhar mais atento

por Yasmin Ribeiro
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Poisonous Love é uma daquelas séries GL que se tornam fáceis de assistir, quase irresistíveis. A química entre as protagonistas é evidente desde os primeiros minutos, o ritmo é envolvente e a narrativa sabe exatamente como manter o espectador preso episódio após episódio. No entanto, basta um olhar um pouco mais atento para perceber que, por trás da estética sedutora e da tensão romântica, existe uma história profundamente problemática e é justamente aí que mora sua força e sua maior fragilidade.

Essa não é uma série que pede reflexão constante enquanto você assiste. Pelo contrário: ela funciona melhor quando você simplesmente se deixa levar. Ainda assim, no momento em que o cérebro entra em modo analítico, surgem perguntas incômodas sobre limites, obsessão, romantização do abuso e a tênue linha entre desejo e controle.

Ginny e Jayna: Uma Química Que Sustenta Toda a Série

É impossível falar de Poisonous Love sem destacar o coração da narrativa: Ginny (Prem) e Jayna (Pat). A química entre as duas não é apenas boa, ela é magnética. Seus olhares carregam significados, seus silêncios comunicam tensão e a linguagem corporal cria uma atmosfera que prende o espectador de forma quase hipnótica.

A série acerta ao construir personagens que se influenciam mutuamente. Prem, inicialmente rígida, disciplinada e moldada para atender às expectativas familiares, começa a rachar lentamente diante da presença caótica de Pat. Ao mesmo tempo, Pat encontra em Prem um objeto de desejo que vai muito além do amor: torna-se obsessão.

Ginny entrega uma atuação especialmente sensível. Sua Prem não é apenas a “filha perfeita” ou a cirurgiã cardíaca bem-sucedida; ela é uma mulher sufocada por expectativas, medo e culpa. Sua vulnerabilidade é silenciosa, mas devastadora, e é justamente isso que torna suas decisões tão frustrantes quanto compreensíveis.

Pat: A Protagonista Que Seria Vilã em Qualquer Outra História

Aqui está o ponto mais controverso da série e também o mais fascinante. Pat é carismática, elegante, confiante, ousada e absolutamente impossível de ignorar. Ao mesmo tempo, ela é o maior sinal de alerta que um GL poderia apresentar.

Se Pat fosse um homem, dificilmente seria romantizada. Ela ultrapassa limites de forma constante, ignora repetidos “nãos”, invade espaços emocionais e físicos e apresenta comportamentos que, no mundo real, se encaixariam facilmente em perseguição e abuso. Algumas de suas investidas são genuinamente desconfortáveis e flertam perigosamente com a normalização do consentimento duvidoso.

A série, consciente ou não, trata essas atitudes como tensão romântica. O problema é que, em 2025, esse tipo de abordagem já deveria ser mais questionada. Cenas de beijos quando uma das personagens está alcoolizada ou emocionalmente fragilizada não podem mais ser tratadas como romantização inofensiva.

Ainda assim, e aqui está o grande paradoxo, Pat funciona. Você não deveria torcer por ela, mas torce. Não porque suas atitudes sejam defensáveis, mas porque sua presença em cena é avassaladora. Ela é o tipo de personagem que caminha perigosamente entre o romance e o crime, entre o amor e a obsessão. E a série sabe disso.

O Romance Como Algo Escuro, Não Idealizado

Diferente de muitos GLs que apostam apenas no conforto emocional, Poisonous Love escolhe mergulhar em temas mais densos: obsessão, arrependimento, sacrifício e relações assimétricas de poder. Isso torna a experiência desconfortável em vários momentos especialmente se o espectador optar por analisar as ações sob uma lente realista.

No entanto, é justamente essa ousadia que dá identidade à série. Poisonous Love não tenta ser uma história de “amor fofo entre garotas”. Ela é, acima de tudo, um retrato imperfeito e inquietante de relações que nascem de lugares emocionalmente frágeis.

O episódio 9 exemplifica isso com brutalidade. É um dos momentos mais difíceis de assistir, emocionalmente pesado e narrativamente cruel. Não por acaso, é também um dos mais memoráveis.

Direção, Ritmo e Cenas Íntimas: Um Equilíbrio Raro

Tecnicamente, a série merece elogios consistentes. A direção demonstra cuidado, especialmente nas cenas íntimas. Há um equilíbrio delicado entre intensidade e respeito, algo raro em produções do gênero. Nada parece gratuito ou exploratório; cada momento existe para servir à jornada emocional das personagens.

O ritmo é outro ponto forte. A narrativa avança sem pressa excessiva, mas também sem se arrastar. Quando a série quer machucar, ela machuca. Quando quer seduzir, seduz. E faz isso com consciência.

O roteiro, embora problemático em algumas escolhas temáticas, se destaca por diálogos mais naturais e menos dependentes de clichês. As conversas importam, carregam peso emocional e contribuem para a construção psicológica das personagens.

Vilãs Que Funcionam Porque Incomodam

Nam cumprem perfeitamente seus papéis narrativos. Nam, em especial, é uma vilã no sentido mais clássico da palavra: ela provoca raiva, desconforto e frustração. E isso é um elogio. Uma vilã que não desperta emoções é irrelevante. Nam, ao contrário, é memorável justamente por ser odiosa.

A atriz entrega uma performance afiada, manipuladora e perturbadora, elevando o nível dramático da série. Já Nam, apesar de repetitiva em alguns momentos, cumpre sua função de catalisador de conflitos, mesmo testando a paciência do espectador.

Vale a Pena Assistir? Sim, Mas Com Consciência

Apesar de todas as críticas, Poisonous Love é viciante. É fácil maratonar, difícil de largar e impossível de ignorar. Ela prende não porque é moralmente correta, mas porque é emocionalmente intensa.

É uma série que entretém, provoca e, ao mesmo tempo, incomoda. Não é perfeita. Romantiza comportamentos questionáveis e flerta perigosamente com a normalização da obsessão. Ainda assim, quando funciona, funciona muito bem — emocionalmente, visualmente e narrativamente.

Poisonous Love é a prova de que o GL tailandês pode ser ousado, complexo e artisticamente ambicioso. Você pode amar, se frustrar ou sentir ambos ao mesmo tempo. E talvez seja exatamente isso que a torna tão marcante.

No fim, fica a sensação de que Ginny e Jayna merecem um roteiro melhor no futuro porque talento e química, definitivamente, não lhes faltam.

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