Only You: a promessa que se perde na execução

Uma produção aguardada que não alcançou o próprio potencial

“Only You”, produção da emissora tailandesa Channel 3 (CH3), chegou ao público carregando expectativas pouco comuns dentro do gênero GL (Girls’ Love). Anunciada como a reunião de LingOrm, dupla que conquistou uma base de fãs sólida após o impacto de The Secret of Us (TSOU), a série trazia consigo a responsabilidade implícita de repetir não apenas a química, mas também a sofisticação emocional e o cuidado narrativo que marcaram o projeto anterior.

Entretanto, em vez de consolidar esse legado, “Only You” apresenta uma execução irregular, que não dialoga com o potencial da premissa nem com o talento de suas protagonistas, resultando em uma obra percebida, por grande parte do público, como um dos desapontamentos mais evidentes do ano.


Entre promessas e falhas: a queda de uma produção ambiciosa

Desde o anúncio, “Only You” prometia tudo o que um bom GL precisa para conquistar o público: uma trama de ação e romance entre uma guarda-costas (Tawan, interpretada por Ling) e uma celebridade herdeira (Ayla, vivida por Orm). A sinopse sugeria uma mistura envolvente de perigo, desejo e afeto, uma receita com alto potencial emocional.

Mas, já nos primeiros episódios, ficou evidente que algo não funcionava. O que deveria ser um drama vibrante acabou se tornando um romance visualmente brilhante, porém narrativamente vazio. A produção parece ter perdido o equilíbrio entre estética e substância, entregando uma experiência mais parecida com um comercial estendido do que com uma série emocionalmente impactante.

Os problemas técnicos saltam aos olhos. A paleta de cores excessivamente clara, os anéis de luz visíveis nas cenas e a trilha sonora repetitiva, especialmente a música-tema de Ling, tocada de forma aleatória até mesmo em momentos íntimos, comprometem a imersão. Em vez de reforçar o clima, esses elementos distraem o espectador. Há ainda um problema de montagem que dá ao ritmo um ar apressado, sem tempo para o desenvolvimento natural das emoções.

A direção que apagou o brilho das protagonistas

É impossível falar de “Only You” sem mencionar a química magnética entre LingOrm. As duas atrizes possuem carisma e talento comprovados  e isso torna ainda mais evidente o erro de direção. Em “The Secret of Us”, suas performances eram intensas e genuínas; em “Only You”, soam forçadas e desajeitadas, como se as atrizes estivessem tentando interpretar uma versão de si mesmas.

Orm, normalmente elogiada por sua naturalidade, parece presos a maneirismos infantis e reações exageradas, enquanto Ling, que deveria carregar a aura fria e protetora de Tawan, entrega uma performance emocionalmente distante e artificial. A culpa, porém, não recai inteiramente sobre elas. Tudo indica uma direção inconsistente, que não soube explorar o melhor do elenco  e um roteiro que oferece pouco espaço para nuance.

Os diálogos, por sua vez, carecem de profundidade. São lineares, previsíveis e, por vezes, constrangedores. Faltam frases memoráveis, silêncios significativos ou momentos de real vulnerabilidade. Tudo é exposto de forma direta, sem subtexto, o que empobrece a experiência e impede o espectador de se conectar com o que está sendo dito.

Roteiro previsível e falta de ritmo narrativo

“Only You” tenta equilibrar romance e ação, mas acaba fracassando nos dois campos. As sequências de luta, que poderiam trazer dinamismo e ampliar o escopo da história, soam excessivamente coreografadas, carentes de realismo e de qualquer impacto emocional. Falta peso, urgência e consequência, como se cada confronto existisse apenas para preencher o tempo de tela. Já o romance, que deveria ser o eixo central da narrativa e a principal força de conexão com o público, se perde em repetições e gestos automáticos, incapazes de transmitir o vínculo genuíno que o gênero GL costuma explorar com tanta delicadeza.

O roteiro se apoia em clichês já exaustivamente explorados pelo entretenimento tailandês: o amor interrompido pelo passado, a diferença de classe social, o pai controlador, o segredo familiar. Nenhum desses elementos, porém, é revisitado com frescor ou sensibilidade. Tudo se desenrola dentro de uma fórmula previsível, onde o espectador antecipa cada virada antes mesmo que ela aconteça. O resultado é uma história que, em vez de tensionar ou emocionar, parece se contentar em repetir estruturas prontas, sem ousar reinterpretá-las.

O ritmo irregular apenas agrava a sensação de desalinho. Há capítulos em que nada acontece por longos minutos, seguidos de resoluções apressadas que esvaziam o impacto dramático. Conflitos que poderiam amadurecer e gerar expectativa são resolvidos de forma súbita, quase burocrática, o que impede o público de se envolver emocionalmente. No fim, “Only You” soa como uma narrativa fragmentada, com boas intenções, mas incapaz de sustentar arcos sólidos ou construir uma progressão emocional que convença.

O brilho que resiste: a química de LingOrm

Mesmo com tantos tropeços, é impossível ignorar o que ainda sustenta “Only You”: a força magnética entre LingOrm. Juntas, elas continuam sendo o coração pulsante da narrativa, a fagulha que impede o drama de colapsar por completo. Há algo quase instintivo na maneira como dividem a cena; um olhar, um toque breve ou mesmo o silêncio entre as duas comunica mais do que muitos diálogos longos e expositivos. Mesmo com uma direção que oscila entre o teatral e o disperso, a dupla consegue imprimir uma naturalidade rara, um afeto que o público reconhece e ao qual se apega.

Em meio ao enredo irregular e à estética que tenta em vão equilibrar o tradicional e o moderno, LingOrm oferecem uma ancoragem emocional. Suas interações, especialmente nas cenas mais íntimas ou contemplativas, têm um peso que transcende o texto. Quando o roteiro finalmente lhes dá espaço para respirar, como nas sequências finais, surge o brilho do que “Only You” poderia ter sido.

O beijo derradeiro entre Tawan e Ayla não é apenas um gesto de amor, mas um lembrete poderoso do talento e da sintonia que essas atrizes demonstraram desde “The Secret of Us”. É um momento que concentra, em segundos, toda a intensidade que o resto da série tentou alcançar e não conseguiu.

É justamente aí que “Only You” encontra seu pequeno, mas significativo triunfo. Apesar de todos os equívocos de produção, a conexão entre Ling e Orm sobrevive  autêntica, palpável e profundamente humana. Mesmo os espectadores mais críticos acabam reconhecendo esse resquício de verdade, um brilho discreto que atravessa a tela. No fim, é essa química que dá sentido à experiência de assistir à série: não pelo que “Only You” é, mas pelo que poderia ter sido nas mãos de uma direção mais corajosa e de um roteiro à altura de suas protagonistas.

Defesa dos novos públicos

Há também quem defenda que “Only You” não foi pensado para o mesmo público que consagrou “The Secret of Us”. Diferente das produções GL voltadas ao streaming, o drama da Channel 3 foi exibido em TV aberta, em um horário considerado nobre e, portanto, precisava dialogar com um público mais amplo, maduro e conservador.

A proposta, segundo essa visão, seria aproximar o gênero de um formato tradicional de telenovela tailandesa, com tramas familiares, dilemas morais e um tom mais contido nas demonstrações de afeto. No entanto, a questão que permanece é inevitável: essa tentativa de conquistar novos espectadores realmente justifica a queda na qualidade narrativa e emocional de uma história que prometia ser um excelente GL?

Conclusão: um GL bonito, mas sem alma

“Only You” é o retrato claro de uma produção que parecia ter todos os elementos necessários para se tornar memorável elenco querido, apelo popular e uma emissora disposta a apostar no gênero, mas que falhou em transformar potencial em impacto. O resultado é um drama tecnicamente competente, esteticamente agradável e, ainda assim, emocionalmente vazio. O enredo previsível, aliado a uma direção confusa e a um ritmo desigual, impede que a série alcance o peso dramático que o público esperava. Tudo é bonito, polido e cuidadosamente enquadrado, mas falta algo essencial: alma.

Para quem busca apenas um GL leve, visualmente refinado e com uma atmosfera de conforto, “Only You” cumpre seu papel com dignidade. Há belas locações, figurinos bem pensados e uma trilha sonora que embala os momentos certos. Contudo, para os que esperavam um novo marco do gênero algo que dialogasse com a profundidade e a intensidade emocional de “The Secret of Us”, a série se torna uma decepção silenciosa. A sensação é de assistir a uma história que teme sua própria força, que escolhe a neutralidade onde poderia haver emoção, e a cautela onde o público ansiava por autenticidade.

Ainda assim, “Only You” não é um fracasso completo. Há momentos de doçura genuína, cenas em que a química entre Ling e Orm rompe as limitações do roteiro e oferece lampejos do que o projeto poderia ter sido. O carinho entre as protagonistas, mesmo diluído por uma narrativa contida, permanece como a centelha que mantém o interesse vivo até o final. Mas essa fagulha, isolada, não é suficiente para sustentar o peso de uma obra que se propôs a abrir caminhos.

Em última análise, “Only You” serve como lembrete de que nem a beleza visual nem o carisma do elenco conseguem substituir o coração pulsante de uma boa história. Falta ousadia, falta vulnerabilidade, falta verdade  justamente os ingredientes que transformam um drama em algo inesquecível. “Only You” é, portanto, um belo invólucro vazio: um GL de aparência sofisticada, mas que, ao fim, se desfaz como uma promessa não cumprida.

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