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My Safe Zone: quando apenas a química sustenta uma história

por Yasmin Ribeiro
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Em meio à crescente popularidade das produções GL e ao impacto cultural que esse gênero vem conquistando, My Safe Zone surge cercada de expectativas. Afinal, trata-se não apenas de mais um título do catálogo do Channel 3, mas também da estreia oficial de seu segundo casal LenaMiu, que rapidamente chamou atenção pela química evidente dentro e fora das telas. No entanto, apesar do potencial e de uma recepção inicial curiosa, a série tropeça onde mais deveria se firmar: no roteiro e no desenvolvimento dramático.

Desde os primeiros episódios, fica claro que My Safe Zone sofre de um problema recorrente nas produções originais do Channel 3: muitas ideias são apresentadas, poucos conflitos são realmente aprofundados e grande parte das tramas simplesmente não cumpre nenhuma função narrativa relevante. O resultado é uma história fragmentada, emocionalmente instável e, em vários momentos, frustrante para quem busca mais do que apenas boas interações românticas.

Um roteiro frágil e apressado que compromete a experiência

O principal ponto crítico da série é, sem dúvida, o roteiro fraco e apressado. A narrativa dá a sensação constante de que algo foi cortado no processo de edição. Em especial nos episódios 3 e 7, cenas importantes duram menos de três minutos, diálogos cruciais surgem e desaparecem rapidamente, e acontecimentos relevantes são jogados ao espectador sem o devido preparo emocional.

Essa construção apressada prejudica diretamente o envolvimento com os personagens. Em vez de acompanhar um crescimento gradual, o público é empurrado de um ponto dramático a outro sem tempo para absorver emoções, criar expectativa ou desenvolver empatia. O romance entre Alin e Jane, por exemplo, simplesmente acontece. Não há construção sólida, tensão romântica ou antecipação para momentos-chave como o primeiro beijo ou a primeira noite juntas. Tudo surge de forma abrupta, quase mecânica.

Como consequência, a série entra em um ciclo repetitivo: o casal está junto, algo acontece, elas se afastam emocionalmente, sofrem, choram, e logo tudo se resolve — apenas para o mesmo padrão se repetir no episódio seguinte. Falta progressão, falta impacto, falta evolução.

Alin e Jane: protagonistas carismáticas presas a personagens mal escritos

É impossível falar de My Safe Zone sem destacar o paradoxo central da obra: personagens mal escritas interpretadas por atrizes extremamente competentes. Alin e Jane são protagonistas que despertam carinho no público não por aquilo que o roteiro constrói, mas graças à entrega emocional de Lena e Miu.

Alin é a personagem que recebe algum nível de aprofundamento. Sua história passada, suas dores e suas inseguranças são exploradas, ainda que de maneira irregular. Já Jane, surpreendentemente, permanece rasa do início ao fim. Sabemos que ela mora com a tia, mas nunca descobrimos o motivo. Não há uma história de fundo consistente, não há conflitos internos claros, não há arcos próprios. Para uma protagonista, essa ausência é grave.

Além disso, o relacionamento entre as duas flerta perigosamente com a romantização de comportamentos tóxicos. O ciúme excessivo, os conflitos constantes e o sofrimento prolongado acabam sendo apresentados como prova de amor, quando, na verdade, enfraquecem a narrativa e tornam a relação emocionalmente desgastante.

Personagens secundários: excesso de nomes, ausência de função

Outro problema estrutural da série está no uso caótico de personagens secundários. Pie, Tim e Kate entram e saem da história sem qualquer planejamento narrativo consistente. Pie, que poderia ser uma figura interessante, causa impacto em um episódio e simplesmente desaparece no seguinte. Tim surge como novo foco de conflito, acompanhado de Kate, apenas para gerar mais confusão do que desenvolvimento.

Essa sucessão de personagens, sem tempo para respiração ou aprofundamento, cria uma sensação de bagunça narrativa. Em vez de enriquecer a história, eles diluem o foco e tornam o enredo ainda mais instável. No fim, a maioria desses personagens se mostra irrelevante para a evolução das protagonistas.

Produção e direção: um ponto de equilíbrio

Se o roteiro decepciona, a qualidade de produção consegue, ao menos, manter a série em um nível aceitável. A direção de Khun Ou Patchanee apresenta boas composições visuais, enquadramentos competentes e uma colorização que contribui para a atmosfera emocional da obra.

Comparada a outros lakorns do Channel 3, My Safe Zone demonstra um cuidado visual ligeiramente superior, o que rende pontos positivos. No entanto, escolhas repetitivas de edição — como o uso excessivo das mesmas tomadas de transição entre dia e noite — acabam quebrando a imersão e revelam certa preguiça criativa na pós-produção.

O figurino também merece críticas. Em diversos momentos, as roupas escolhidas não dialogam com o contexto das cenas, comprometendo o realismo. A insistência do Channel 3 em estéticas idealizadas, em vez de visuais confortáveis e críveis, mais uma vez distancia a narrativa da realidade emocional que ela tenta transmitir.

Atuações e química: o verdadeiro coração da série

Apesar de todas as falhas, My Safe Zone não desmorona completamente graças às atuações de Lena e Miu. A química entre elas é genuína, fluida e convincente, tornando suas interações naturais e emocionalmente críveis. É essa conexão que sustenta a série até o fim.

Lena entrega uma performance sólida, transmitindo vulnerabilidade e emoção, enquanto Miu demonstra segurança e sensibilidade em cena. Juntas, elas conseguem elevar diálogos simples e situações mal escritas a algo minimamente envolvente. Não é exagero afirmar que carregam a série inteira nas costas.

A trilha sonora, embora agradável, sofre com a repetição excessiva. O uso constante das mesmas músicas, prática comum em produções do gênero, rapidamente se torna cansativo e dilui o impacto emocional que deveria reforçar.

Considerações finais: potencial desperdiçado, mas não irrelevante

My Safe Zone é uma série que claramente tinha potencial, mas se perde em escolhas narrativas equivocadas. O roteiro frágil, o desenvolvimento superficial dos personagens e o ritmo caótico impedem que a obra alcance algo além da medianidade.

Ainda assim, como projeto de estreia do casal LenaMiu, a série cumpre um papel importante: prova que há química, talento e interesse do público. Com um roteiro mais bem estruturado, personagens mais profundos e uma edição menos apressada, esse duo pode, sim, brilhar em projetos futuros.

No fim das contas, My Safe Zone não é uma obra memorável, nem revolucionária dentro do gênero GL. É uma produção assistível, sustentada por boas atuações e uma base visual competente, mas que serve principalmente como lembrete de que química sozinha não substitui uma boa história.

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