Like A Palette: quando boas ideias se perdem em uma tela sem profundidade

Like A Palette” chega ao público envolta em cores suaves, olhares tímidos e a promessa de um romance sensível dentro do universo GL. À primeira vista, tudo parece cuidadosamente pensado para agradar: uma estética delicada, personagens carismáticas e uma proposta que dialoga diretamente com temas essenciais como autodescoberta, identidade lésbica e enfrentamento do preconceito — incluindo a transfobia. No entanto, conforme a narrativa avança, a série revela uma contradição incômoda: ideias potentes sustentadas por uma execução surpreendentemente frágil.

O resultado é uma obra que sorri para o espectador, mas raramente o envolve por completo.

Representatividade sem rodeios: um dos maiores acertos da série

Antes de qualquer crítica mais dura, é preciso reconhecer um mérito inegável: “Like A Palette” nomeia o que tantas produções ainda evitam. A série usa a palavra lésbica de forma clara, direta e sem subterfúgios. Não há eufemismos, não há tentativas de suavizar a identidade das personagens para torná-las mais “palatáveis”. Esse gesto, embora simples, carrega um peso simbólico enorme dentro do gênero GL e merece destaque.

Além disso, a narrativa trata a sexualidade e a identidade de gênero com respeito e cuidado. A abordagem da transfobia, por exemplo, não surge como um artifício dramático gratuito, mas como parte orgânica do mundo em que as personagens existem. A série também se diferencia ao apresentar um ambiente familiar acolhedor, algo ainda raro em produções do gênero. A figura materna de Jane foge completamente do arquétipo da mãe repressora e funciona como um pilar emocional positivo, um respiro necessário em meio a tantos retratos de rejeição.

Esses elementos não apenas fortalecem a mensagem da obra, como também mostram que havia, sim, uma visão clara por trás do projeto.

Um romance que funciona… até parar de funcionar

No início, a dinâmica entre as protagonistas é genuinamente cativante. Os olhares hesitantes, os silêncios carregados de expectativa e o processo gradual de aproximação constroem um arco de autodescoberta que soa honesto, especialmente para quem se reconhece em narrativas femxfem. A química inicial existe, e o elenco, de modo geral, demonstra empenho em transmitir emoções reais.

No entanto, quando o relacionamento finalmente se concretiza, algo se quebra.

A progressão romântica, que deveria se intensificar, regride. A intimidade simplesmente desaparece. As protagonistas passam a dividir o mesmo espaço como se fossem estranhas emocionalmente distantes, sem o toque, o afeto e a urgência típicos de um casal recém-formado. A ausência de gestos simples como abraços, proximidade física, cumplicidade corporal, cria uma sensação artificial que enfraquece completamente a verossimilhança do romance.

Esse problema não parece estar na capacidade das atrizes, mas sim na condução da direção, que falha ao entender que intimidade também se constrói nos detalhes silenciosos.

Direção fraca e escolhas que sabotam momentos-chave

Se há um ponto onde “Like A Palette” mais tropeça, é na direção. A sensação constante é a de que momentos cruciais foram desperdiçados. Situações que poderiam aprofundar conflitos, fortalecer vínculos emocionais ou simplesmente permitir que as personagens respirem em cena são tratadas com pressa ou com uma estranheza quase amadora.

Os enquadramentos de câmera, em diversos momentos, causam mais desconforto do que impacto. Há cenas importantes que carecem de peso visual, enquanto outras, irrelevantes para a progressão da história, recebem tempo demais. Essa falta de equilíbrio prejudica o ritmo e reforça a impressão de uma narrativa fragmentada.

A história avança como uma sequência de acontecimentos sem grande consequência emocional. Tudo acontece, mas pouco permanece.

Personagens promissoras presas a uma escrita irregular

Jane, a protagonista, é um exemplo claro dessa inconsistência. Sua ingenuidade extrema chega a ser desconcertante, especialmente nos primeiros episódios. Embora haja algum crescimento ao longo da série, ele é tímido demais para compensar a sensação inicial de superficialidade. A atuação de Thongfah Alicha, apesar de central, carece de naturalidade em momentos cruciais, com uma dicção estranha e escolhas interpretativas que dificultam a conexão emocional.

Prigkhing, por outro lado, entrega uma performance mais segura, mas nem mesmo seu esforço consegue sustentar uma química que nunca se desenvolve plenamente. O restante do elenco secundário ajuda a tornar a experiência mais suportável, mas também sofre com subtramas pouco exploradas e, muitas vezes, descartáveis.

Boa parte dessas fragilidades poderia ter sido resolvida com mais episódios ou, ao menos, com uma melhor distribuição narrativa. A primeira metade da série se apoia excessivamente em cenas de preenchimento, enquanto o final parece apressado, como se a história tivesse sido obrigada a concluir antes de amadurecer.

Slice of life sem profundidade suficiente

“Like A Palette” se encaixa claramente no formato slice of life, com pouco drama e uma proposta mais contemplativa. O problema não está na escolha do gênero, mas na falta de densidade. Momentos isolados funcionam — como algumas cenas de humor e interações pontuais —, porém eles não se conectam de forma satisfatória a um todo coeso.

A série melhora levemente na segunda metade, mas já carrega o peso de um início mal estruturado. Boas ideias surgem tarde demais e não recebem o desenvolvimento necessário para causar impacto real.

Conclusão: um potencial que nunca se concretiza por completo

“Like A Palette” é uma série contraditória. Ao mesmo tempo em que acerta ao abraçar explicitamente a identidade lésbica, tratar temas sociais relevantes com respeito e oferecer uma representação familiar positiva, falha gravemente naquilo que sustenta qualquer romance audiovisual: direção segura, progressão emocional convincente e química bem explorada.

É uma obra fofa, sim. Bem-intencionada, sem dúvida. Agradável em momentos específicos. Mas também é uma produção que deixa a sensação constante de que poderia ter sido muito mais.

Para quem busca um GL leve, com representatividade clara e poucas tensões dramáticas, a série pode funcionar — desde que as expectativas sejam ajustadas. Para quem espera uma narrativa romântica envolvente, memorável e emocionalmente consistente, “Like A Palette” acaba sendo mais uma paleta bonita… que nunca chega a pintar um quadro verdadeiramente marcante.

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