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I Wanna Be Sup’Tar: Quando o Romance Ultrapassa o Consentimento

por Yasmin Ribeiro
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O terceiro episódio de I Wanna Be Sup’Tar, remake do lakorn homônimo estrelado por Lilly Thongkham e Belle Kittavornsakul, marcou uma inflexão brusca na trajetória da série. Até então, a produção apostava em uma romcom delicada, com diálogos ágeis, tensão leve e um desenvolvimento gradual da dinâmica entre Win e Wannueng.

No entanto, o episódio exibido na sexta-feira (20) rompeu esse equilíbrio ao introduzir uma sequência que não apenas destoou do tom estabelecido, mas também expôs uma fragilidade ética recorrente na abordagem de temas sensíveis.

Wannueng sofre uma tentativa de abuso. A agressão é interrompida com a chegada de Win. Dramaticamente, a cena poderia servir para explorar trauma, vulnerabilidade e fortalecimento de vínculos com responsabilidade. Mas a escolha narrativa seguinte compromete todo o arco: Win beija Wannueng enquanto ela está desacordada, emocionalmente exausta após a violência.

Esse gesto, enquadrado pela linguagem audiovisual como romântico, carrega uma contradição evidente: não há consentimento.

E quando uma série que vinha se vendendo como leve e doce normaliza esse tipo de ação, não estamos diante de um deslize isolado. Estamos diante de um sintoma.

Consentimento não é nuance opcional, é a base da construção romântica

Existe uma linha inegociável entre tensão dramática e violação de limites, e cruzá-la não é ousadia criativa, é negligência narrativa. Um beijo dado a alguém inconsciente, independentemente da intenção da personagem, não é gesto romântico: é ausência de consentimento. E quando a linguagem audiovisual enquadra essa ação com trilha suave, enquadramento íntimo e intenção protetora, o que se faz é revestir uma invasão com verniz poético. O resultado inevitável é um ruído ético profundo.

A tentativa de abuso, por si só, já era um elemento dramático de extrema delicadeza. Trata-se de um gatilho real, doloroso, que exige cuidado psicológico e construção sensível. Transformá-lo em combustível para acelerar a aproximação do casal protagonista não é apenas um atalho, é uma banalização. A violência deixa de ser tratada como trauma e passa a funcionar como engrenagem de roteiro. Em vez de explorar o impacto emocional na vítima, o texto a reduz a instrumento narrativo, a um meio para que outra personagem avance sentimentalmente.

Isso enfraquece a obra em dois níveis. Primeiro, porque empobrece a complexidade da personagem que sofreu a agressão. Segundo, porque revela uma lógica antiquada de dramaturgia: a de que o sofrimento feminino é matéria-prima eficiente para intensificar romance.

Não se trata de defender histórias higienizadas ou livres de conflito. Pelo contrário. Obras maduras encaram temas difíceis de frente, assumem riscos e sustentam as consequências emocionais de cada escolha. O problema surge quando o trauma é utilizado como botão de aceleração dramática, uma solução fácil para produzir impacto imediato, sem arcar com a profundidade que o tema exige.

A pergunta, portanto, não é superficial. Ela é estrutural e incômoda: por que ainda insistir na ideia de que a dor feminina é um dispositivo eficaz para gerar proximidade amorosa? Por que a vulnerabilidade extrema precisa ser o cenário para o despertar do afeto? E, sobretudo, por que ainda se confunde intensidade com transgressão de limites?

Se o romance precisa da violação para parecer forte, talvez o problema não esteja na falta de conflito, mas na falta de imaginação narrativa.

Um padrão que se repete na CHANGE 2561

A discussão se torna ainda mais grave quando deslocamos o olhar do episódio isolado e examinamos o histórico da CHANGE 2561. O que poderia ser tratado como deslize circunstancial começa a assumir contornos de padrão criativo.

Em Harmony Secret, a cena em que Aiwarin beija Mewika à força foi apresentada como ápice de tensão romântica, um momento pensado para incendiar a narrativa. No entanto, o que incendiou, de fato, foi o debate público. A reação foi imediata e consistente: espectadores apontaram a ausência de consentimento explícito e questionaram a romantização da imposição física como marco de virada emocional.

Não se tratava de implicância pontual. Tratava-se de um alerta.

Já em Pit Babe 2, ainda que fora do universo GL, temas como assédio e quase abuso voltaram a ser incorporados à trama sob um enquadramento que suavizava suas implicações. O desconforto não veio apenas do conteúdo, mas da forma como a narrativa diluía a gravidade das situações, tratando-as como tensão dramática administrável, quase estética.

Quando situações assim surgem de maneira reiterada, deixa de ser coincidência. Deixa de ser erro de cálculo. Passa a revelar uma lógica interna de construção dramática que enxerga a violação de limites como recurso eficiente para gerar impacto.

E é exatamente aí que reside o problema.

Porque padrões não são acidentes. Padrões são escolhas.

E escolhas recorrentes, sobretudo quando envolvem temas como consentimento e violência, exigem revisão estrutural profunda, não apenas ajustes pontuais ou pedidos formais de desculpas. Exigem mudança de mentalidade, de sala de roteiro, de critérios criativos.

Caso contrário, cada nova produção carregará a mesma sombra: a de transformar limites ultrapassados em ferramenta de entretenimento.


O impacto da audiência e a edição tardia

Após a repercussão negativa nas redes e fóruns especializados, a CHANGE optou por editar o episódio no YouTube, removendo as cenas consideradas problemáticas. A ação foi rápida, mas inicialmente silenciosa.

Somente depois veio o comunicado oficial, no qual a equipe reconheceu a falha, pediu desculpas e assumiu responsabilidade, afirmando que a situação servirá como aprendizado.

É importante reconhecer a importância do pedido de desculpas. Entretanto, há uma questão que permanece: por que esse tipo de cuidado não é aplicado antes da exibição?

A maturidade do público contemporâneo não é novidade. O debate sobre consentimento não começou ontem. A indústria audiovisual global já atravessou discussões profundas sobre o tema.

Se o aprendizado só ocorre após a reação negativa, estamos diante de um modelo reativo, não preventivo.

O GL como espaço de responsabilidade

O crescimento do GL nos últimos anos não é apenas mercadológico. Ele carrega um simbolismo forte de representatividade feminina e LGBTQIA+. Por isso, quando essas produções reproduzem dinâmicas de invasão de limites sob a justificativa de “romance”, o impacto é duplo.

Primeiro, porque banaliza experiências reais de violência.
Segundo, porque compromete a credibilidade do gênero enquanto espaço seguro de identificação.

Romance não precisa nascer do trauma. Química não precisa surgir da imposição. Intensidade não exige ultrapassar limites.

Narrativas bem construídas mostram que desejo e consentimento podem coexistir de forma potente, emocional e até mais envolvente.

Romance não precisa nascer da violência

Existe uma crença antiquada na dramaturgia de que intensidade emocional precisa ser provocada por choque ou trauma. Mas o público já demonstrou, repetidas vezes, que conexões construídas com diálogo, cuidado e respeito são não apenas possíveis, mas muito mais envolventes.

A química entre protagonistas não depende de transgressão de limites. Depende de construção.

Se Win tivesse permanecido ao lado de Wannueng em vigília silenciosa, se tivesse escolhido proteger sem ultrapassar limites, se aguardasse que ela despertasse para qualquer gesto de afeto, a cena teria carregado uma força simbólica muito maior. O respeito, naquele contexto, seria revolucionário. O autocontrole seria romântico. A espera seria arrebatadora.

Em vez disso, optou-se pelo gesto impulsivo travestido de carinho. E essa escolha expõe não uma carência de talento, mas uma falha de reflexão crítica. Porque talento constrói cenas impactantes. Reflexão constrói cenas responsáveis.

E, no cenário atual, responsabilidade não é opcional , é exigência mínima.

Até quando o “romantizado” servirá como desculpa?

A grande questão que emerge desse episódio ultrapassa I Wanna Be Sup’Tar. Ela expõe uma fissura mais ampla na engrenagem do entretenimento contemporâneo. Não estamos debatendo apenas uma cena, um beijo ou um episódio mal calibrado. Estamos questionando um modelo narrativo que insiste em flertar com a violação de limites enquanto o disfarça de paixão arrebatadora.

Até quando o audiovisual continuará tratando consentimento como detalhe ajustável de roteiro? Até quando a justificativa da “intenção pura” servirá como escudo moral para ações que, na prática, ignoram a autonomia da outra pessoa? Desde quando boa intenção substitui autorização clara? Desde quando o afeto presumido anula a necessidade de escolha consciente?

A repetição dessa lógica revela algo mais profundo: uma resistência em abandonar fórmulas dramáticas que já deveriam ter sido superadas. Porque romantizar a invasão de limites não é ousadia estética, é comodismo criativo. É recorrer ao impacto fácil em vez de investir na construção sofisticada de vínculos.

O desafio que se impõe à CHANGE 2561 — e, por extensão, a toda a indústria — é inequívoco: abandonar de forma definitiva a ideia de que transgressão gera química e que imposição gera intensidade. Não basta editar cenas após a repercussão negativa. É preciso revisar mentalidades antes que o roteiro chegue às câmeras.

Isso não é politização excessiva. É amadurecimento cultural. É compreender que o público evoluiu, que as discussões avançaram e que responsabilidade narrativa não é censura, é compromisso com a própria relevância.

Porque evoluir não significa eliminar conflitos. Significa retratá-los com consciência. E, no cenário atual, continuar tratando consentimento como elemento secundário não é apenas um erro estratégico. É uma escolha que define que tipo de indústria se quer sustentar daqui para frente.

Entre o erro reconhecido e a mudança real

O comunicado oficial afirma que medidas serão tomadas para evitar que situações semelhantes se repitam. A audiência, no entanto, observará mais as próximas escolhas de roteiro do que as palavras divulgadas.

Porque confiança se reconstrói com prática, não apenas com retratação.

O episódio três de I Wanna Be Sup’Tar poderia ter sido apenas mais um capítulo de desenvolvimento romântico. Tornou-se, porém, um ponto de tensão que expõe a necessidade urgente de amadurecimento criativo.

Se o GL quer consolidar seu espaço como gênero relevante, precisa se comprometer com narrativas que respeitem aquilo que defendem simbolicamente: autonomia, desejo consciente e reciprocidade.

Afinal, a pergunta que ecoa é simples e desconfortável:

Que tipo de romance estamos dispostos a aplaudir?

E, mais importante, que tipo de romance a indústria está disposta a continuar produzindo?

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