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Dangerous Queen: Um GL que não é perfeito, mas é honesto

por Yasmin Ribeiro
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Dangerous Queen não é uma obra-prima incontestável, tampouco tenta se vender como tal. Ainda assim, a série se impõe como uma das experiências interessantes dentro do universo dos GLs tailandeses recentes, principalmente por sua coragem narrativa, pelo carisma de suas protagonistas e pela tentativa sincera de equilibrar romance, drama social e jogos de poder. É uma produção que oscila entre acertos emocionais genuínos e falhas técnicas evidentes, mas que jamais perde completamente sua força.

Desde o início, fica claro que a adaptação permanece relativamente fiel ao material original. A essência da história — o relacionamento em construção entre Queen e Babe — está lá. O problema surge quando, nos episódios finais, a narrativa parece se dispersar, deslocando o foco do romance para as artimanhas dos antagonistas. Essa mudança de eixo enfraquece o impacto emocional, especialmente porque o maior trunfo da série sempre foi a intimidade silenciosa e gradual entre as protagonistas.

Ainda assim, mesmo com a perda de ritmo no terço final, Dangerous Queen consegue sustentar o interesse do espectador. E isso não é pouco.

Ritmo e direção: quando a promessa inicial perde fôlego

O ritmo de Dangerous Queen começa surpreendentemente bem. A primeira metade da série constrói tensão emocional com paciência, permitindo que os sentimentos se desenvolvam de forma orgânica. No entanto, conforme a trama avança, a direção parece hesitar quanto ao que realmente quer contar. O romance, que deveria ser o centro gravitacional da narrativa, acaba sendo parcialmente eclipsado por conflitos externos que não recebem o mesmo cuidado de desenvolvimento.

Essa indecisão narrativa se reflete também nas escolhas de enquadramento. Alguns ângulos são estranhamente restritivos, especialmente nas cenas de beijo. Mesmo considerando possíveis limitações impostas pelo canal ou diretrizes de exibição, certas decisões são difíceis de justificar do ponto de vista da linguagem cinematográfica. Há momentos em que a câmera evita o rosto das atrizes de maneira tão abrupta que quebra a imersão emocional, como na infame tomada do beijo pela nuca de Queen, que não apenas soa antinatural, como visualmente desajeitada.

Em um gênero que depende profundamente da conexão emocional e da expressão física do afeto, essas restrições acabam diluindo a intensidade de momentos que deveriam ser memoráveis.

Atuações: onde a série realmente encontra sua força

Se a direção falha em alguns aspectos, o elenco principal compensa com entrega e presença. Tangkwa (TK), no papel de Queen, é o grande destaque da série. Sua atuação transmite autoridade, frieza e ambição, mas nunca perde a camada de humanidade que torna a personagem fascinante. Queen poderia facilmente cair no estereótipo da CEO inalcançável, mas TK injeta nuances sutis — especialmente através do olhar — que revelam vulnerabilidade e cuidado genuíno.

Nur, por sua vez, entrega uma atuação crua e emocionalmente honesta como Bonita (Babe). Sua interpretação foge do melodrama exagerado comum em produções do gênero e aposta em uma dor silenciosa, marcada por culpa, baixa autoestima e um desejo constante de independência. Bonita é uma personagem que carrega o peso da pobreza, do abandono e da responsabilidade precoce, e Nur consegue transmitir isso sem precisar verbalizar excessivamente.

Embora algumas falas soem rígidas — algo compreensível considerando que ambas são relativamente novas na indústria —, a química entre as duas é inegável. Os olhares prolongados, que dividiram opiniões, funcionam como uma extensão emocional da narrativa. Mais do que simples pausas dramáticas, eles comunicam saudade, contenção e desejo reprimido.

Personagens secundários e trilha sonora: acertos e tropeços

O elenco de apoio cumpre bem sua função narrativa, com destaque para Sam, o guarda-costas de Queen. Diferente do arquétipo comum, ele não é apenas um figurante silencioso, mas um personagem com humor, habilidade e, sobretudo, empatia. Sua relação com Queen e Bonita adiciona leveza e humanidade à trama.

Já a trilha sonora é um dos pontos mais frágeis da série. Algumas músicas emotivas são usadas de forma excessivamente repetitiva, especialmente nos momentos de choro de Bonita, o que acaba enfraquecendo o impacto emocional ao invés de reforçá-lo. A música deixa de ser um complemento narrativo e passa a soar como um recurso automático.

Uma história simples, mas eficaz — e um final que divide opiniões

Narrativamente, Dangerous Queen não tenta reinventar o gênero. A história é relativamente simples, mas funcional. O arco de redenção apresentado no final da série é crível e evita exageros morais. Não se trata de absolver pecados imperdoáveis, mas de compreender erros humanos dentro de um contexto realista. Isso torna o desfecho emocionalmente mais honesto.

O último episódio, ao contrário do que costuma acontecer em produções com poucos episódios, não soa completamente apressado. Ainda assim, deixa pontas soltas que só fazem sentido diante da confirmação de uma segunda temporada. O final pode parecer estranho ou incompleto para alguns, mas funciona como uma promessa de continuidade, não como uma falha absoluta.

Produção, orçamento e contexto: é preciso olhar o todo

É impossível analisar Dangerous Queen sem considerar seu contexto de produção. Trata-se da primeira GL produzida pela S.Nur Entertainment, com recursos limitados e uma equipe ainda em fase de aprendizado. Dentro dessas condições, o resultado é não apenas competente, mas admirável.

As inconsistências técnicas — especialmente no som — são perceptíveis, mas não chegam a comprometer a experiência como um todo. O que sustenta a série é o comprometimento evidente do elenco e da equipe. Há esforço, dedicação e uma vontade genuína de contar essa história, e isso transparece em cena.

Conclusão: Dangerous Queen vale a pena?

Sim, vale. Dangerous Queen não é perfeita, mas é sincera. É uma série que aposta na construção lenta do romance, confia no silêncio, nos olhares e nas pequenas ações. Apesar de tropeçar em escolhas técnicas e perder parte de seu fôlego no final, ela entrega personagens cativantes, atuações promissoras e uma química central que sustenta toda a narrativa.

Mais do que isso, Dangerous Queen representa um passo importante para produções independentes de GLs tailandeses. Apoiar essa série é, de certa forma, investir no crescimento de um mercado que ainda está se consolidando. Com mais recursos, atenção às críticas construtivas e maturidade técnica, a S.Nur Entertainment tem potencial para entregar obras ainda mais sólidas no futuro.

Dangerous Queen pode não ser uma rainha incontestável, mas definitivamente não passa despercebida. E, em um gênero onde a emoção é tudo, isso já é uma vitória significativa.

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