A televisão tradicional vive um ponto de inflexão e os BL e GL podem ser a mudança. Durante décadas, o modelo de negócios foi sustentado por uma engrenagem previsível: audiência alta, intervalos comerciais caros e anunciantes disputando espaço. No entanto, esse ciclo está se esgotando e, no caso da Tailândia, a transformação já não é uma previsão, mas uma realidade em curso.
Uma análise recente das demonstrações financeiras dos principais canais de TV tailandeses, divulgada em um artigo do site Stockfocusnews, revela um movimento estratégico que vai muito além da simples sobrevivência do setor: trata-se de uma verdadeira reinvenção do modelo de negócios. No centro dessa transformação estão dois gêneros que deixaram de ocupar um espaço de nicho para se consolidarem como pilares econômicos da indústria, as séries BL (Boys’ Love) e GL (Girls’ Love).
A Ruptura do Modelo Tradicional
A queda da receita publicitária na televisão não acontece por acaso, nem de forma isolada. Ela é resultado direto de uma mudança no comportamento do público. Cada vez mais, as pessoas estão deixando de consumir conteúdo apenas pela TV tradicional e migrando para plataformas digitais, como streaming e redes sociais, onde podem escolher o que assistir, quando quiserem e de acordo com seus interesses.
Nesse ambiente digital, o consumo é mais fragmentado, ou seja, o público se divide entre diversas plataformas, mais personalizado, já que cada usuário recebe conteúdos alinhados ao seu perfil, e, principalmente, mais mensurável. Isso significa que anunciantes conseguem acompanhar com precisão quantas pessoas viram um anúncio, por quanto tempo e qual foi o resultado gerado, algo que a televisão não consegue oferecer com o mesmo nível de detalhe.
Diante desse cenário, depender exclusivamente da publicidade televisiva se tornou uma estratégia arriscada. Afinal, os investimentos das marcas estão migrando para onde há mais controle, dados e retorno comprovado deixando a TV tradicional em desvantagem e forçando o setor a buscar novas formas de gerar receita.
Por isso, os canais que entenderam a necessidade de adaptação saíram na frente. Em vez de tentar recuperar um modelo em declínio, passaram a explorar novas formas de monetização e encontraram nos fandoms uma fonte de receita altamente lucrativa.
A Economia do Afeto: Quando o Público Vira Investidor
O diferencial das produções BL e GL não está apenas nas histórias que contam, mas na relação que constroem com o público. Diferentemente de formatos tradicionais, essas narrativas criam comunidades engajadas, emocionalmente conectadas e, mais importante, dispostas a investir financeiramente nos artistas que admiram.
Esse fenômeno deu origem ao chamado “Idol Marketing”, um ecossistema que inclui gestão de artistas, fan meetings, eventos exclusivos e turnês internacionais. Não se trata mais apenas de produzir conteúdo, trata-se de vender experiências.
ONEE e GMMTV: Liderança Sustentada por Fandoms
Dentro desse novo paradigma, a ONEE (The One Enterprise Public Company Limited) se destaca como o caso mais sólido de adaptação bem-sucedida. Por meio da GMMTV, a empresa consolidou uma estratégia focada na criação e gestão de talentos que transcendem a tela.
Em 2025, a ONEE registrou uma receita de 7.3 bilhões de baht e lucro de 450 milhões de baht. À primeira vista, os números impressionam mas o que realmente chama atenção é a composição dessa receita.
Enquanto a publicidade recua, o Idol Marketing cresce de forma acelerada, com aumento superior a 38%. Turnês mundiais de casais populares, nascidos dentro de séries BL e GL, tornaram-se eventos altamente rentáveis, reforçando uma lógica clara: o conteúdo é apenas o ponto de partida.
Produções como “Me and Thee” e “Whale Store” não apenas geraram audiência, mas criaram duplas com forte apelo comercial, capazes de mobilizar multidões e gerar receitas recorrentes.
Channel 3: A Recuperação Através do GL
Se a ONEE representa consolidação, a BEC World Public Company Limited (Channel 3) mostra uma recuperação estratégica. Após um 2024 de base fraca, a empresa projeta um crescimento significativo em 2025, impulsionado, sobretudo, pelo investimento em conteúdo GL.
Com receita de 4.0 bilhões de baht e lucro de 205 milhões de baht, o Channel 3 demonstra que a diversificação de receitas não é apenas uma alternativa, mas uma necessidade.
Os números confirmam essa virada: 26% da receita do grupo já vem de fontes não publicitárias, incluindo licenciamento, distribuição internacional, plataformas digitais e eventos. O crescimento de 29,9% nesse segmento evidencia uma mudança estrutural no modelo de negócios.
Dramas como “Only You” e “My Safe Zone” desempenham papel central nesse avanço, ampliando não apenas a audiência, mas o alcance global da emissora.
Conteúdo Como Plataforma de Negócios
O que se observa é uma inversão de lógica. Antes, o conteúdo existia para atrair publicidade. Agora, ele funciona como plataforma para múltiplas fontes de receita.
Eventos ao vivo, encontros com fãs, venda de produtos oficiais e turnês internacionais transformam séries em marcas e atores em ativos comerciais de longo prazo. O sucesso não se mede apenas em audiência, mas na capacidade de gerar engajamento contínuo.
A ascensão dos gêneros BL e GL não pode ser vista apenas como uma tendência cultural. Trata-se de um movimento econômico estratégico que está redefinindo o papel da televisão na indústria do entretenimento.
Ao transformar espectadores em comunidades e comunidades em consumidores ativos, os canais tailandeses encontraram uma resposta eficiente para a crise da publicidade. Mais do que isso, criaram um modelo replicável e altamente lucrativo.
A questão que permanece não é se esse modelo irá se consolidar, mas até que ponto ele poderá expandir. Se o presente já mostra resultados expressivos, o futuro aponta para uma indústria cada vez mais orientada por fandoms, experiências e conexões emocionais. A televisão, ao que tudo indica, não está morrendo. Está apenas deixando de ser o que sempre foi para se tornar algo muito maior.